11 outubro 2007

Beleza Brasileira

Tanto tempo sem escrever no blog...
Esse artigo do Ricardo Gondim não poderia deixar de ser registrado.



Beleza brasileira
Ricardo Gondim Constrangido, assisti ao filme “Beleza Americana”. Durante toda a sessão, fui tomado pelo que se poderia chamar de “vergonha alheia”. Corei com a hipocrisia moral, a obsessão pelo sucesso e a disfuncionalidade familiar da sociedade americana. Constrangido, saí do cinema com um pontapé na boca do estômago. Entretanto, o filme retrata um instante lindo. O adolescente viciado em maconha que trafica é obcecado por gravar imagens do cotidiano. Numa dessas filmagens ele capta um saco de lixo bailando ao vento e se deslumbra com aquela rara beleza. Só no final do filme, percebemos que o rapaz tinha um mínimo de coerência, já que só ele era sensível ao belo. Há alguns meses, penso como seria a versão brasileira daquele filme. Começaria por denunciar as grandes hipocrisias nacionais tais como: a negação do racismo, a afirmação cínica de que somos um povo cordial, o desvairado sonho de nos tornarmos um “país do primeiro mundo”, a anacrônica vaidade de ainda possuirmos os mais verdes bosques do planeta. Nos últimos trinta anos, todo esse patriotismo vem ruindo diante do nosso olhar espantado. A “Beleza Brasileira” vem sendo suplantada pelas penitenciárias desumanas, onde se depositam negros e pobres. As favelas cresceram e tornaram-se mais violentas, incubadoras da criminalidade. A Amazônia, gradativamente dizimada pela sanha comercial, arrefeceu com a poesia do hino que exalta o verde louro da flâmula. Todo rio, lago ou canal que banha alguma grande cidade está poluído; a baia da Guanabara, cartão-postal carioca, cheira mal. O desemprego tornou-se endêmico. Nas emergências, os médicos precisam optar pelos doentes com uma mínima possibilidade de serem curados para deixarem os outros morrendo nos corredores. As estradas, verdadeiras armadilhas para a morte, continuam esburacadas. Viajar constitui-se em um tormento no Brasil. Contudo, nesse cenário triste, o desafio é encontrar beleza. Se o rapaz do filme americano se encantou com um saco que bailava no ar, procuro me apaixonar por expressões de formosura latentes ao meu redor. Existe beleza na persistência do operário que acorda de madrugada e pega o trem suburbano para bater o ponto às sete da manhã. Seu rosto, embora magro, revela obstinação; ele acredita que seus filhos terão um futuro diferente do seu. As boas maneiras da empregada doméstica que vive no barracão e serve no apartamento chique têm um quê de virtuoso. Emociono-me com o peão da construção que, de paletó e gravata, se transforma num eloqüente tribuno ao anunciar as alvíssaras do evangelho. Existe beleza no trabalho voluntário dos leprosários, das enfermarias onde indigentes esperam que a morte os liberte do sofrimento, das clínicas de reabilitação onde crianças portadoras de deficiências aprendem a andar. Emociono-me até as lágrimas quando sei que algum coral cantou num centro geriátrico. Existe beleza nos monturos de lixo, nos cortiços que se equilibram sobre córregos fétidos, nas escolas públicas rurais, no barco que desafia o vasto oceano. Basta ter olhos para ver as crianças jogando futebol em campos improvisados, ouvidos para escutar as conversas dos pescadores depois que puxam suas redes e coração para acompanhar o bê-á-bá da professora com seus alunos. Precisamos ser invadidos pela beleza, cativados pelo inefável e dominados pelo sublime. Talvez, essa seja a última esperança da civilização: deixar que o belo encharque a nossa alma. Há algum tempo, procuro tornar-me um garimpeiro dessas pepitas que sobraram do Éden, para descobrir o aceno do divino que habita nas pessoas e nos lugares o tempo todo. Quando Deus contemplou sua criação e suspirou que era bom, notei que ele gosta de apreciar o branco dos lírios, o azul do céu e o negro da noite. Consigo também imaginar sua expressão quando afirmou que era tudo “muito bom”. Sei que ele celebra quando vê amigos se abraçando e fica muito feliz quando um jovem faz serenata para sua amada. Pelos relatos bíblicos sei que o Senhor gosta de poesia e de banquetes. Em julho, chorei com a tragédia do avião que caiu em São Paulo. Sofri quando li as histórias das vidas ceifadas bruscamente. Lamentei pelos que sobraram em seus lutos. Chegaram a me oferecer fotografias dos corpos mutilados, mas recusei. Preferi concentrar meu olhar nos bombeiros que trabalhavam incansavelmente e nos médicos que se apressaram para salvar alguma vida. Proponho que recuperemos nossa capacidade de celebrar alguns mínimos sinais de beleza, mesmo diante de uma realidade tão crua. Estou certo que testemunharemos muitos milagres. Soli Deo Gloria.

2 comentários:

  1. O que seria de nós se não fosse a eterna esperança de que tudo vai melhorar não é?Que dirá da fé que move montanhas...Sempre.
    Adorei o artigo.

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