23 junho 2008

A vida atípica do mendigo que lê livros para não sofrer.

Todos os dias era o mesmo percurso. A aula acabava meio-dia, parava para almoçar e saía da faculdade as 12:30, "de barriga cheia", pegava o metro no Campo Pequeno e descia em Saldanha. Em seu percurso havia três pessoas esquecidas pela sociedade. Uma mulher, na boca do metro que pede esmola, um violinista que toca por alguns trocados e um mendigo que lê livros. O percurso era o mesmo até se chegar no destino final: na rua onde trabalha. Contudo, todos os dias a menina sentia-se observada quando passava pela rua Ferreiro Melo com a Travessa Chave dos Descobrimentos.
Um morador de rua, de aproximadamente 70 anos, pele clara, cabelos grisalhos, cara e "alma" abatida, mas com algo diferente dos outros moradores de rua. Tinha um costume atípico dos outros tantos que a menina via na rua. Sua mania, não era apenas por alimento que o mesmo desejava, era por livros. Livros de religião, política, romance. A casa dos espíritos, Quem matou a vizinha são alguns dos títulos que estavam em sua cabeceira improvisada.
Uma vez a menina parou, entregou um pão e ele com os olhos arregalados falou: - Tem livro também! Foi uma passagem rápida. Mais todos os dias, ele estava no mesmo local, enrolado com o cobertor, lendo livros, as vezes comendo, bebendo vinho, e ouvindo música num mp3 que alguém o duou.
No entanto, a menina desejava saber mais da vida deste pobre homem, que o intrigava com a maneira que vivia. Pensava a mesma: -Ninguém pede pra ser mendigo e geralmente este problema social as pessoas se entregam a miséria de forma total, mas ele optou por cultivar o conhecimento.
Pronto, em um desses dias para um trabalho da faculdade a menina descobriu a vida do homem. Esse homem tem nome: Carlos. Apenas Carlos. Segundo ele, gosta de ler livros, ouvir música e beber vinho. Mas, não gosta de morar na rua. E quem gosta? Por isso o local onde ele dorme hoje, é seu espaço desde há oito anos atrás. O morador de rua que lê livros, durante muito tempo de sua vida trabalhou numa padaria, como ganhava pouco optou por trabalhar nas obras. Quando foi fazer o trabalho pesado, sofreu um acidente de trabalho. Desse acidente resultou: uma cegueira no olho esquerdo. Com a cegueira foi posto pra fora, e mesmo tendo recebido a indemnização não era o suficiente para sobreviver. "Ninguém me ajudou na hora que mais precisei. A família nessa hora nem se quer deu importância ao meu sofrimento. O Governo deu as costas. Nada me restou. Apenas os livros", diz o Sr. Carlos um pouco agressivo com a pergunta da menina.
Carlos é um morador de rua, o mesmo mora a 8 anos nas ruas. Ele improvisou um “lar” em um prédio abandonado de Saldanha.
As necessidades básicas e fisiológicas de Carlos são feitas no banheiro do Metro de Entrecampos, porém banho e a troca de roupas, segundo o morador de ruas que lê livro, faz isso apenas nos fins-de-semana na Santa Casa de Misericórdia. Quanto a alimentação, alguém sempre dá. E os livros são as únicas coisas que permaneceram com ele, desde quando vivia bem, com emprego, quando não era um problema social e sim um cidadão respeitável. Depois de concluir a pequena entrevista a menina saiu com a sensação de não poder fazer nada pelo homem, de coração partido. Contudo, aprendeu em qualquer situação a amar mais os livros, pois mesmo que o algo falte, o conhecimento é algo que não pode ser tirado jamais.

Pérola Custódio
0

Nenhum comentário:

Postar um comentário