10 novembro 2015

Perambule: cearense belga no Ceará

Mudar de continente, fazer intercâmbio e se debandar pelo mundo é um assunto que a jornalista cearense belga An Coppens conhece muito bem. A cearense que saiu do Ceará, mas o Ceará nunca saiu dela relata um pouco de sua história e inspira a “perambular por aí” de forma consciente e encantadora.

Como surgiu sua paixão pelo Ceará?

Nasci em janeiro de 1983 no Trairi (litoral cearense). Quando completei três anos, meu pais, ambos belgas, resolveram voltar com a família a morar na Bélgica (Europa). Vale ressaltar que naquela época falava português e vivia viajando com meus pais pelo interior do município, visitando as comunidades, aonde meus pais realizavam um trabalho junto à Igreja Católica. 
Você pode se imaginar o tamanho do choque cultural na hora de vir morar aqui na Bélgica. Era em dezembro de 1985, no pique do inverno europeu. O frio, as casas enormes, o jeito belga de ser, tudo era bastante diferente daquilo que eu conhecia até então. Minha mãe diz que na medida em que fui crescendo, insistia que um dia voltaria ao Brasil. E esse dia chegou no fim de 2003.
An com 1 ano no interior do Ceará 
  

Por que escolheu voltar para o Ceará?

Tinha acabado de completar 20 anos quando tomei uma das decisões mais importantes da minha vida. Resolvi voltar de vez para minha terra natal. É, isso mesmo, não queria viajar apenas de passeio, como já havia feito. Queria me mudar, voltar às minhas raízes. E dessa vez sem intenção de voltar. Aquela vontade minha de me mudar de país era tão grande que ninguém podia ter me segurado naquele momento. Não era uma decisão racional, era uma decisão puramente emocional. Enquanto tinha tantas razões para não viajar (estava no segundo ano do meu curso de Comunicação, faltava apenas um ano para terminar o curso), insistia que precisava me mudar naquele momento. 
E foi dito feito. Consegui transferir os meus estudos para a Universidade de Fortaleza (Unifor) e poucos meses depois, no fim de junho de 2003, estava morando na querida Fortaleza e frequentando as primeiras aulas na universidade e pouco tempo depois consegui um emprego no Consulado da Holanda em Fortaleza. Confesso que não tive que ralar muito por tudo disso. Parecia coisa do destino: tudo foi se encaixando. Eu tive um anjo de guarda de carne e osso que me ajudou a reconstruir minha vida em Fortaleza. Ele me ajudou a transferir os meus estudos e me ajudou a conseguir o emprego. Mas daí concluir que foi tudo um conto de fadas, também é exagerar.


Como foi sua adaptação? E os costumes que gostava de fazer?

Ali estava eu, com meu jeito meio europeu, meio brasileiro, tentando a vida sozinha do outro lado do mundo. Muita gente me achava meio louca por continuar em Fortaleza. A pergunta que ouvia muito nessa época era "Porquê dificultar a minha vida, se tudo na Bélgica seria muito mais fácil?. É que sou muito marrenta, e adoro desafios. Mas acima disso amo de paixão a minha terra. Quando estou no Ceará é como se tudo se encaixasse na minha vida, me sinto plena e em paz comigo mesma. E foi isso que me levou a ficar. 
Me encantei e me identifiquei a cada dia mais a mais com o jeito caloroso e autentico de ser do povo cearense, com o amor pela vida, a espiritualidade e a intensidade de se viver a vida. Passei a amar assistir novelas, comer feijão com arroz ou cuzcuz com queijo, tapioca com ovo ou coco, o rodizio de carne ou de pasta e pizza. Passei a amar a bagunça na rua, a musica no ônibus, a vaidade brasileira. Me encantei com o forro pé de serra, com a curiosidade das pessoas na rua, que chegam e perguntam “de onde você é?”. Acabei amando passar a tarde na barraca de praia, passar a noite tomando cerveja no posto de gasolina, me arrumar todinha para dar uma voltinha de carro.
Mas como tudo na vida tem dois lados, também me incomodei bastante com algumas coisas, como a violência, os preços absurdos de coisas consideradas básicas na Europa, como plano de saúde. Também me frustrei com diferenças culturais como os atrasos, a burocracia, o machismo, o esnobismo e o desrespeito no trânsito. Mas confesso que na verdade essas diferenças culturais não pesavam muito para mim.


Durante o intercâmbio estudou e atuou na área de Comunicação


Qual sua maior dificuldade?

O que achei mais difícil na época em que morava no Brasil, é a saudade da família e dos amigos. Na época ainda não tinha as redes sociais, e sem smartphone, sem Facebook e Instagram a comunicação era feita apenas por email, por telefone (meus pais compravam um cartão especial para ligar para o Brasil) ou pelos correios. Eu também tinha um blog, onde contava as minhas historias e onde compartilhava as minhas experiências com a cultura cearense com minha família e meus amigos na Bélgica. 

Qual a surpresa boa do intercâmbio?
Bem, resumindo quatro anos em quatro frases, eu encontrei meu marido no fim de 2005, por meio da irmã dele, uma amiga que conheci na Unifor. Em 2006 decidimos morar juntos, em 2007 a gente se casou e no fim daquele ano resolvemos nos mudar para a Belgica. 

E como foi a hora de voltar?

Esta decisão nós tomamos a partir do nosso desejo de ter filhos. Este desejo nos levou a pensarmos melhor nas nossas condicoes de vida. Estavamos os dois trabalhando em empregos bons, cada um formado (ele em Contabilidade e eu em Comunicação) e executando um trabalho  que a gente adorava muito. Mesmo assim não tínhamos condicoes de comprar um carro, de pagar uma creche ou uma baba, de comprar uma casa ou apê, de fazer uma poupança. Mas o que pesou mais na nossa decisão foi a violência urbana que estava aumentando a cada dia.
A nossa decisão não foi uma decisão emocional, foi uma decisão puramente racional. Afinal, acabamos escolhendo uma vida com mais certezas, mais segurança  e mais conforto. Porque achamos que esta é a melhor escolha para o nosso filho, que nasceu em 2012 e já completa 3 aninhos e meio. É claro que já teve horas em que a gente se perguntava se tinha tomado a decisão certa. Ao chegar em terra belga, meu marido também teve um choque cultural. Bem como no Brasil, aqui a gente também bateu de frente com as diferenças culturais que encontramos no nosso caminho. O jeito belga de ser é muito diferente do jeito cearense. O meu marido teve que aprender a língua holandesa, que, convenhamos, é bastante difícil. E depois de um ano de estudo de língua, ele, que se formou em Contabilidade e trabalhou como auditor no Brasil, achou um trabalho como carteiro. É óbvio que este não seja o emprego dos sonhos dele, mas está feliz por ter um emprego fixo há cinco anos e meio e por termos juntos construído uma vida confortável e segura. É perfeito? Não, não é. Mas estamos juntos na luta, marrentinhos que só nós. Acho que este intercambio cultural nos fez crescer como pessoas e que até fortaleceu o nosso relacionamento.


Há oito anos An vive na Bélgica com o marido e o filho 


Qual o proveito do intercâmbio?

E assim, a gente tenta levar um pouquinho de cada uma das duas culturas. Bélgica e Brasil são dois mundos completamente diferentes, mas ambos são a nossa casa. Hoje eu posso dizer que nao me arrependo de nada e que faria tudo novamente! Dou graças a Deus por ter tido a oportunidade de viver tudo isso! A vida é muito bela e rica. Basta a gente enxergar isso e aproveitar de cada segundo e de cada oportunidade. Se joga de corpo e alma! Ou como diz a minha sogra: sem medo de ser feliz. Então se você tiver pensando em fazer um intercambio cultural, eu lhe digo: vá e siga firme com seu objetivo, que valerá muito a pena essa experiência! 

Um comentário:

  1. Pérola, que legal ler a história da An Coppens! O que mais amo no mundo são essas diferenças, que nos tornam pessoas melhores, que nos faz ver tudo com outros olhos. A melhor coisa do mundo é ter oportunidade de descobrir novos lugares e culturas. Beijo, lindona :*

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